Perder uma gestação é uma experiência profundamente dolorosa. Quando essa situação acontece mais de uma vez, é natural surgirem dúvidas, insegurança e o medo de que uma nova gravidez termine da mesma forma.
A boa notícia é que, atualmente, muitas causas podem ser investigadas e, em diversas situações, existe tratamento ou acompanhamento especializado capaz de aumentar as chances de uma gestação saudável.
Neste artigo, você vai entender quando investigar o aborto de repetição, quais podem ser as causas e como a Medicina Fetal pode contribuir no planejamento da próxima gravidez.
O que é considerado aborto de repetição?
Tradicionalmente, o aborto de repetição era definido como a ocorrência de três ou mais perdas gestacionais consecutivas.
Atualmente, sociedades médicas como a American Society for Reproductive Medicine (ASRM) e a European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) recomendam que a investigação possa ser iniciada após duas perdas gestacionais, principalmente quando existem fatores de risco, idade materna avançada ou grande ansiedade do casal. O Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) mantém como definição clássica três perdas consecutivas, mas também reconhece que a investigação pode ser individualizada.
Quanto mais precoce a avaliação dos casos selecionados, maiores podem ser as chances de identificar fatores tratáveis e planejar adequadamente uma futura gestação.
O aborto de repetição é comum?
Cerca de 10 a 20% das gestações clinicamente reconhecidas evoluem para aborto espontâneo, sendo a maioria das perdas no primeiro trimestre.
Já o aborto de repetição é muito menos frequente, acometendo aproximadamente 1 a 2% dos casais.
Embora seja uma condição relativamente rara, seu impacto emocional costuma ser profundo e merece uma investigação cuidadosa e individualizada.
Quais são as principais causas?
Em muitos casos, não existe uma única causa. Frequentemente, diferentes fatores podem estar envolvidos.
Alterações cromossômicas
As alterações cromossômicas do embrião são a principal causa dos abortos espontâneos do primeiro trimestre.
Estima-se que 50 a 70% das perdas gestacionais precoces ocorram devido a alterações no número ou na estrutura dos cromossomos, especialmente aneuploidias como trissomias, monossomia X e triploidias.
Na maioria das vezes, essas alterações acontecem de forma esporádica e não significam que exista uma doença genética hereditária no casal. O risco aumenta progressivamente com a idade materna.
Alterações uterinas
Algumas alterações da anatomia do útero podem dificultar a implantação do embrião ou o desenvolvimento da gestação.
Entre elas estão:
- Útero septado;
- Miomas que deformam a cavidade uterina;
- Aderências uterinas;
- Pólipos;
- Malformações uterinas.
Dependendo da suspeita clínica, exames como ultrassonografia transvaginal 3D, histerossonografia ou histeroscopia podem ser indicados.
Alterações hormonais
Doenças hormonais também podem estar relacionadas às perdas gestacionais, como:
- Diabetes mellitus mal controlado;
- Doenças da tireoide;
- Alterações da prolactina;
- Outras alterações endócrinas específicas.
Quando identificadas, essas condições podem ser tratadas antes ou durante a gestação.
Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide
A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é uma das causas mais importantes de aborto de repetição e possui tratamento específico durante a gestação.
Por isso, sua investigação faz parte da avaliação de muitas pacientes com perdas recorrentes.
Trombofilias
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, nem toda mulher com aborto de repetição precisa investigar trombofilias hereditárias.
Os exames devem ser indicados de forma individualizada, conforme a história clínica, os antecedentes pessoais e familiares e as recomendações das principais sociedades médicas.
Essa avaliação evita exames desnecessários e tratamentos sem benefício comprovado.
Alterações genéticas do casal
Em uma pequena parcela dos casos, um dos pais pode apresentar alterações cromossômicas equilibradas, como translocações, que aumentam o risco de perdas gestacionais.
Nessas situações, pode ser indicado o cariótipo do casal e o aconselhamento genético.
Infecções
As infecções raramente são responsáveis por abortos de repetição.
Por esse motivo, a pesquisa para infecções congênitas não faz parte da investigação de rotina de todas as pacientes, sendo solicitada apenas quando existem achados clínicos ou laboratoriais que justifiquem essa avaliação.
Quando nenhuma causa é encontrada
Mesmo após uma investigação completa, cerca de 50% dos casais não apresentam uma causa identificável para as perdas gestacionais.
Isso não significa ausência de tratamento ou impossibilidade de uma gravidez saudável. Na maioria dessas situações, o prognóstico para uma gestação futura continua sendo bastante favorável, especialmente com acompanhamento especializado.
Quais exames podem ser necessários?
A investigação é sempre individualizada e depende da história de cada casal.
Entre os exames que podem ser indicados estão:
- Avaliação da anatomia uterina por ultrassom incluindo 3D;
- Exames hormonais;
- Avaliação da função tireoidiana;
- Pesquisa para Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide;
- Cariótipo do casal em casos selecionados;
- Histeroscopia quando indicada;
- Outros exames conforme a história clínica.
Nem todas as pacientes precisam realizar todos esses exames.
É importante investigar o material do aborto?
Sempre que possível, sim.
A análise genética do material da gestação pode identificar alterações cromossômicas responsáveis pela perda, auxiliando no aconselhamento para futuras gestações e evitando exames desnecessários.
Em algumas situações, esse resultado modifica completamente a estratégia de investigação.
Como a Medicina Fetal pode ajudar?
A consulta em Medicina Fetal permite uma avaliação ampla da história obstétrica e dos exames já realizados.
Além da realização de uma ultrassonografia detalhada compatível com a idade gestacional, podem ser discutidas as indicações de exames complementares, como ecocardiografia fetal, neurosonografia fetal, NIPT (Teste Pré-Natal Não Invasivo) e, quando necessário, procedimentos diagnósticos como a amniocentese.
Cada investigação é planejada de forma individualizada, respeitando as características e necessidades de cada gestação.
É possível ter uma gestação saudável após abortos de repetição?
Sim.
Mesmo após duas ou mais perdas gestacionais, a maioria das mulheres consegue ter uma gravidez bem-sucedida.
O mais importante é identificar, sempre que possível, fatores tratáveis, evitar intervenções desnecessárias e realizar um acompanhamento baseado nas melhores evidências científicas disponíveis.
Acompanhamento especializado faz diferença
Após uma perda gestacional, cada nova gravidez costuma ser acompanhada de muitas dúvidas, ansiedade e insegurança.
Na Afeto Maringá, acreditamos que o acompanhamento deve ir além da investigação. Cada gestação é avaliada de forma individualizada, com ultrassonografia especializada, protocolos atualizados e monitorização cuidadosa ao longo de toda a gravidez.
Nosso objetivo é identificar precocemente possíveis fatores de risco, minimizar complicações sempre que possível e oferecer mais segurança, confiança e tranquilidade para que você viva essa nova etapa com o suporte que merece.
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