Receber a notícia de que os bebês compartilham a mesma placenta costuma gerar muitas dúvidas e insegurança.
É comum que as gestantes perguntem:
“Minha gestação é de maior risco?”
“Por que preciso fazer ultrassom com tanta frequência?”
Embora a maioria das gestações monocoriônicas evolua de forma favorável, elas exigem um acompanhamento muito mais cuidadoso do que as gestações gemelares com duas placentas.
Isso acontece porque algumas complicações são exclusivas desse tipo de gestação e podem evoluir rapidamente. A boa notícia é que, quando identificadas precocemente, muitas delas podem ser acompanhadas adequadamente e, em situações específicas, até tratadas durante a gestação.
O que significa uma gestação monocoriônica?
Uma gestação é chamada de monocoriônica quando os dois bebês compartilham a mesma placenta.
Na maioria dos casos, cada bebê possui sua própria bolsa amniótica (monocoriônica diamniótica). Mais raramente, além da placenta, eles também compartilham a mesma bolsa (monocoriônica monoamniótica), situação que exige cuidados ainda mais específicos.
A determinação da corionicidade deve ser realizada preferencialmente no ultrassom entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias, período em que sua identificação apresenta maior precisão.
Esse diagnóstico é um dos momentos mais importantes da gestação, pois define todo o planejamento do acompanhamento, incluindo a frequência dos exames, os riscos específicos e até a idade gestacional mais adequada para o parto.
Por que essas gestações precisam de acompanhamento mais frequente?
Como os bebês compartilham a mesma placenta, existem comunicações naturais entre os vasos sanguíneos de ambos.
Na maioria das vezes, essa circulação permanece equilibrada. Entretanto, algumas gestações podem desenvolver complicações exclusivas, como:
- Síndrome da Transfusão Feto-Fetal (TTTS);
- Restrição Seletiva de Crescimento Fetal (sFGR);
- Sequência Anemia-Policitemia (TAPS);
- Sequência TRAP, uma complicação rara.
Por esse motivo, a International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology (ISUOG) recomenda que as gestações monocoriônicas diamnióticas sejam acompanhadas com ultrassonografias a cada duas semanas entre 16 e 24 semanas de gestação, período de maior risco para o desenvolvimento dessas complicações.
Durante essas avaliações são analisados o crescimento dos bebês, a quantidade de líquido amniótico, o enchimento da bexiga fetal, a circulação fetal por meio do Doppler e, quando indicado, o comprimento do colo do útero.
O diagnóstico precoce pode permitir tratamento ainda durante a gestação
O principal objetivo desse acompanhamento não é apenas diagnosticar complicações, mas identificá-las no momento em que ainda é possível intervir.
Em cada ultrassonografia, o especialista em Medicina Fetal procura sinais precoces de complicações como a Síndrome da Transfusão Feto-Fetal (TTTS). Além do diagnóstico, a avaliação ultrassonográfica permite determinar sua gravidade por meio da classificação de Quintero, sistema utilizado internacionalmente para estadiar a doença e orientar a melhor conduta.
É justamente essa avaliação ultrassonográfica seriada que define se a gestação pode continuar apenas em acompanhamento ou se existe indicação de encaminhamento para um centro especializado em cirurgia fetal por fetoscopia com coagulação a laser das anastomoses vasculares placentárias.
Esse procedimento é atualmente o tratamento padrão para os casos de TTTS que preenchem critérios específicos e representa um dos maiores avanços da Medicina Fetal, melhorando significativamente o prognóstico dos bebês quando realizado no momento adequado.
Embora apenas uma parcela das gestantes necessite desse tratamento, reconhecer precocemente a doença é fundamental para que a cirurgia possa ser indicada na janela ideal.
Qual o papel da Medicina Fetal?
O acompanhamento da gestação monocoriônica vai muito além da realização de ultrassonografias.
O objetivo é monitorar continuamente o desenvolvimento de cada bebê, avaliar o funcionamento da placenta e identificar qualquer alteração o mais precocemente possível.
Dependendo da idade gestacional e da evolução da gravidez, esse acompanhamento pode incluir:
- Ultrassonografias seriadas;
- Doppler obstétrico;
- Avaliação do crescimento fetal;
- Avaliação da quantidade de líquido amniótico;
- Medida transvaginal do colo do útero, quando indicada;
- Ecocardiografia fetal.
Cada gestação recebe um plano de acompanhamento individualizado, baseado nas melhores evidências científicas e nas necessidades de cada mãe e de seus bebês.
O tempo faz diferença
Na maioria das vezes, o acompanhamento frequente confirma que os bebês estão evoluindo normalmente.
Mas, quando uma complicação surge, identificá-la precocemente pode permitir intervenções capazes de modificar significativamente o prognóstico da gestação.
Na Afeto Maringá, seguimos protocolos atualizados de Medicina Fetal para acompanhar cuidadosamente cada gestação monocoriônica, utilizando ultrassonografia de alta resolução e Doppler obstétrico para monitorar o desenvolvimento dos bebês e reconhecer precocemente possíveis complicações.
Mais do que realizar exames, nosso compromisso é oferecer um acompanhamento especializado que proporcione mais segurança para a mãe e seus bebês durante toda a gestação.
Perguntas frequentes
1) Toda gestação monocoriônica desenvolve Síndrome da Transfusão Feto-Fetal?
Não. A maioria das gestações monocoriônicas evolui sem essa complicação. O acompanhamento frequente existe justamente para identificar precocemente os casos que necessitam de tratamento.
2) Por que o ultrassom é realizado a cada duas semanas?
Porque algumas complicações podem surgir e evoluir rapidamente. As avaliações quinzenais permitem identificar alterações ainda nas fases iniciais, quando as possibilidades de tratamento são maiores.
3) Toda gestante com gêmeos que compartilham a mesma placenta precisará de cirurgia fetal?
Não. A cirurgia fetal é indicada apenas para casos específicos que atendem a critérios definidos pela avaliação ultrassonográfica. Felizmente, a maioria das gestantes não necessita desse procedimento.
4) O Doppler faz parte do acompanhamento?
Sim. O Doppler obstétrico é uma ferramenta fundamental na avaliação das gestações monocoriônicas, auxiliando no monitoramento da circulação fetal e placentária ao longo de toda a gravidez.
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